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...pergunta
sobre
Caíssa e
quer
saber de
que
mito
ou
cultura
provém essa
lendária
figura
tão
citada e reverenciada
por
mim.
Ou
seja,
ele
quer
uma
resposta
que
até
hoje
ninguém
conseguiu
formular
satisfatoriamente
sobre
uma das
mais
controversas
questões
da plurissecular
história
do
xadrez.
Uma das
mais
interessantes
passagens
bíblicas descreve Jesus sendo indagado
acerca
dos
impostos
taxados
pelos
usurpadores
romanos
em
Jerusalém. E Jesus, escandindo
mais
uma de
suas
divinas
parábolas,
separava
com
precisão
as
coisas
do
espírito
e da
matéria:
“A
Deus
o
que
é de
Deus;
a César o
que
é de César”.
Há
mais
de 30
anos,
eu
publicava
um
opúsculo
mensal
intitulado
Cadernos
de
Xadrez,
que
trazia no
seu
expediente
–
como
uma
espécie
de
subtítulo
ou
profissão
de
fé
– uma
paráfrase
dessa bíblica
citação:
“A
Deus
o
que
é de
Deus;
a Sessa o
que
é de Sessa”.
Sessa, segundo a lenda, seria
o filósofo brâmane que inventou o jogo de xadrez para distrair
um entediado rajá. E o rajá, maravilhado, não aceitou a
obstinada recusa de Sessa em ser agraciado e ordenou-lhe então
que ele fizesse um pedido material, fosse qual fosse, capaz de
recompensá-lo por tão espetacular invento.
Aqui
há uma
outra
parábola
velada e
sutil:
Sessa fez
um
pedido
impossível
de
ser
atendido,
isto
é,
nada
pode
comprar,
superar
ou
sequer
se
comparar
ao
universo
ilimitado do
jogo
de
xadrez.
Sessa pediu
um
grão
de
trigo
pela
primeira
casa
do
tabuleiro,
dois
pela
segunda,
quatro
pela
terceira
e
assim
sucessivamente,
em
ordem
geométrica,
até
a 64ª e
última
casa
do
tabuleiro.
A
quantidade
de
trigo
que
ele
pedira
era
equivalente a
um
cinturão
de
três
metros
de
espessura
em
volta
do
globo
terrestre...
Com
a demorada
ocupação
da
península
ibérica
na
Idade
Média
pelos
árabes,
que
nessa
época
dominavam
amplamente
o
incipiente
xadrez
mundial (o
jogo
de Sessa, a
arte de
Sessa), o
nome
indiano
de Sessa sofre uma ligeira mas significativa transformação
para Sissa. De Sissa para Cissa é um senão ortográfico.
Depois, quem sabe alguma influência saxônica e eis então uma
questão fonética, o c convertido em k, kissa. E assim, de
corruptela em corruptela, vamos encontrar finalmente o nome,
agora feminino, de nossa deusa suprema – Kaíssa.
O
árbitro
internacional
e
autor
enxadrístico Pablo Morán publicou na
revista
Ocho x Ocho (junho
de 1989)
um
artigo
pretendendo
explicar
a
origem
do
nome
Caíssa.
“Na
verdade,
não
é uma deusa
clássica,
mas
sim
uma
criação
do
final
do
século
18,
sem
parentesco
algum
com
as
divindades
olímpicas consagradas
pela
Mitologia”,
ele
diz. E
após
tecer
algumas
considerações
sobre
as
nove
musas
filhas de Zeus e Mnemósine,
ele
situa a
criação
da
jovem
musa
Caíssa no
ano
de 1772.
Morán explica
então
que
Sir William Jones (1746-1794),
famoso
orientalista
inglês,
quando
ainda
era
estudante
em
Oxford, publicou nesse
ano
de 1772
um
poema
intitulado Caíssa –
data
em
que
esse
nome
aparece
pela
primeira
vez.
No
poema,
Jones descreve Caíssa
como
uma encantadora dríade (ou
ninfa)
que
vive
nos
bosques
da Trácia,
correspondente
a
um
sítio na
Grécia
Antiga
onde
hoje
é a Bulgária, na
região
do Maritza e Tunya.
Depois
de Jones,
um
outro
inglês,
jogador
e
periodista
Petter Pratt, registrou o
nome
Caíssa no
seu
livro
Studies of Chess, publicado
em
Londres, 1803.
Posteriormente,
mais
um
autor
inglês,
George Walker, fez o
mesmo
em
seu
Chess and Chessplayers (Londres, 1950).
Depois
disso, o
nome
Caíssa adquiriu
enorme
popularidade
nos
países
de
língua
inglesa.
Na França, a
popularidade
do
nome
Caíssa deveu-se
principalmente
aos
artigos
escritos
sobre
o
tema
por
La Bourdonnais, Mery, Saint Aimant e
outros
na La Palamède,
que
foi a
primeira
revista
do
mundo
dedicada ao
xadrez.
Entre
a
desocupação
mourisca
da Espanha (1492) e o
poema
de Jones (1772), passaram-se
quase
três
séculos,
mas
não
se pode
esquecer
que
muitos
nomes
permaneceram indelevelmente na
cultura
dos
povos.
É
oportuno
lembrar
também
que
a Espanha,
depois
de 1492, continuou
durante
muito
tempo
como
o
maior
centro
enxadrístico do
mundo.
Por
exemplo,
Paul
Morphy (1837-1884)
era
descendente
direto
de espanhóis,
assim
como
José Raul Capablanca (1888-1942).
Só
depois
(Século
20) é
que
apareceram os eslavos.
Ou
será
que
o
nome
Caíssa caiu do
céu?
Se caiu do
céu,
então
deve
ter
sido
para
abençoar
o
lar
do
meu
amigo
santista
e
exímio
enxadrista,
Dr. Roberto Assumpção,
que
com
sensibilidade
e
discernimento,
batizou uma de
suas
filhas
com
o
nome
de Caíssa.
Além
da
homenagem
à deusa de
nossa
arte,
Assumpção
simplesmente
adotou
um
nome
raro
e belíssimo de
que
a
sua
filha
sempre
poderá se orgulhar.
(HC – in Dário
Popular,
25.07.1998)
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