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Com o
falecimento esta
semana (maio/1980)
de Alfred Hitchcock, perde o
cinema uma das
suas
figuras exponenciais. Pertencente à
galeria dos
grandes
diretores
que têm arrebatado as
platéias de
todo o
mundo
com
suas
admiráveis
produções, Hitchcock revolucionou a
cinematografia
com
seus
métodos e
concepções, convertendo-a num
instrumento
capaz de
suscitar as
mais intensas e vívidas
emoções.
Dotado de
um
completo
domínio da
arte de
despertar o
interesse do
espectador,
esse
cineasta
inglês mostrou-se
sempre
extremamente
meticuloso
em
suas
realizações, extraindo
efeitos dos
mínimos
detalhes e
mesmo os
assuntos
mais
supérfluos e
triviais foram transformados
por
ele
em
temas
fascinantes e
surpreendentes.
O
seu
trabalho foi
sobremodo valorizado
com o
contraste
entre a
banalidade do
fato abordado e o
tratamento
especial
dado
pela
sua
prodigiosa
imaginação e apurada
técnica.
Uma
vulgar “Janela
Indiscreta”,
um
simplório “Ladrão
de
Casaca”,
um
corriqueiro “Alarme no
Expresso” e
até
mesmo uma “Corda”
passaram a
ser
motivo do
mais
autêntico
suspense nas
mãos hábeis de Hitchcock.
Desde as primeiras
cenas, os
seus
emocionantes
filmes prendem a
atenção, exacerbam os
nervos dos
assistentes e os mantém
tensos
até o
último
instante.
Graças a essa
extraordinária
capacidade,
ele passou a
ser
conhecido
como “O
mestre do
suspense”. A
esse
respeito,
por
ocasião da
estréia
em paris de “Intriga
Internacional” –
um de
seus
mais
expressivos
thrillers – Hitchcock afirmou:
“Tão
logo iniciei
minha
carreira
como
diretor, fui atraído
pela
experiência
nova de
fazer o
espectador
sofrer, martirizá-lo
com o
suspense,
pois, no
final das
contas, as
pessoas ficam aterrorizadas,
mas
felizes
por terem partilhado as
agruras e
angústias
que afligem os
astros na
tela”.
No
mundo do
xadrez, encontramos
também verdadeiros “mestres
do
suspense”
que sabem
imprimir às
suas
partidas
características dramáticas e tensas,
capazes de
provocar
nos
aficionados as
mais
fortes
emoções. Há
pouco,
por
ocasião do
torneio
internacional de Lone Pine, tiveram
ensejo de defrontar-se
dois
êmulos de Hitchcock: o
imprevisível Roman Dzindzichasvili e o
notável Bent Larsen.
Embate
decisivo
para a classificação
final desse
certame, envolvendo a
apreciável somo de 15
mil dólares, essa
partida despertou a
atenção
geral e foi acompanhada
com
grande
interesse. O
clima
era,
portanto, do
mais
perfeito “suspense
hitchcockiano’...
Correspondendo
plenamente à
expectativa, à
magnitude da competição e às
circunstâncias do
momento,
esse
encontro de desenrolou
vivo e interessante,
com
engenhosos ardis e complicadas
manobras, deixando
atônita e inquieta
toda a
assistência. A
sala do
torneio transformou-se
em
palco de uma
trama urdida
com
fios do
mais
tenso
melodrama. Parecia
que
um
invisível Hitchcock dirigia
esses
dois
artistas do
tabuleiro.
Quem venceria? Esta, a
indagação
dominante
em
todos os
espíritos. Seria coroado de
êxito o
audacioso
plano de Larsen? Conseguiria
Dzindzichasvili
sustar o
ataque
contra o
seu
rei e
obter
um
expressivo
triunfo?
Obedecendo à
mesma
linha de
conduta do consagrado
diretor
anglo-americano, deixamos os
leitores
em
suspense
para
que acompanhem
com
redobrado
interesse e
curiosidade as
peripécias dessa
significativa
partida
que comentamos
em
seguida.
R. Dzindzichasvili x B. Larsen
(Xº
Torneio Louis D. Statham, Lone Pine,
24.03.1980 – Bogoíndia, E 11)
1 d4 Cf6 2 c4 e6 3 Cf3 Bb4+ (Historicamente, foi
em
São Petersburgo, 1913,
que Aaron Nimzowitch introduziu esta
jogada na
prática
magistral.
Tempos
depois, o
mestre Effim Bogoljubov aperfeiçoou
esse
sistema
que passou a
ser
conhecido
com o
seu
nome. Intimamente ligado às
defesa
Índia da
Dama e Nimzowitch, esta
variante
procura
conquistar
para as pretas
um
jogo
ativo e
dinâmico).
4 Bd2 De7 (A
alternativa
advogada
por Averbach 4...a5 tem sido
muito castigada, destacando-se o
triunfo de Polugaievsky
frente a Smyslov, na Spartakíada de 1979).
5 Cc3 (É
também
digno de
consideração 5 g3, servindo de
exemplo a
partida Andersson x Kurajica,
Banja Luka 1979).
5... 0-0 6 a3 Bxc3 7 Bxc3 b6 8 e3 Ce4 9
Dc2 Bb7 10 Be2 d6?! (Uma
concessão de
natureza
estratégica.
Era preferível de
imediato 10…a5!,
com a
idéia de
impedir a
expansão das brancas na
ala da
dama, uma
vez
que
não
era
viável 11 b4?
Por
causa de 11...Cxc3 12 Dxc3 axb4!
Por
outro
lado, se 11 0-0 a4!,
com
um
bom
jogo
para as pretas).
11 0-0 Cd7 12 Tfd1 a5 (Uma
decisão
tardia,
que
não
mais impede a
temática
demonstração das brancas na
ala da
dama).
13 b4! Cxc3 14 Dxc3 Tfe8 15 Tac1 Cf6 16 Cd2 h6 17 c5! axb4 18 axb4
Cd5 19 Db3 bxc5 20 dxc5 Teb8! (Não
se conformando
em
ficar
passivamente aguardando os
acontecimentos, Larsen
prepara
um
corajoso
contra-ataque).
21 c6 Ba6 22 b5! Bxb5!? 23 Bxb5 Ta5 24 Tb1! Taxb5 25 Dxb5!
(Mediante essa
troca
oportuna, Dzindzichasvili consegue uma
promissora
posição).
25... Txb5 26 Txb5 Cc3 27 Tb8+ Rh7 28 Ta1 d5 29 Cf3 Df6 30 Ta7 Ce4
31 h4! (Os
objetivos de
ambos os
lados estão
perfeitamente
definidos: Larsen
busca
efetuar
um
ataque
frontal ao
rei
branco,
enquanto Dzindzichasvili tem
em
mira
fazer
valer
seu peão-c).
31... Dc3 32 Txc7 Da1+ Rh2 33 Rh2 Cxf2 34 Txf7 Dh1+ 35 Rg3 Ce4+ 36
Rf4 Dxg3 (De
repente, o
ataque das pretas assume
aspecto
decisivo. A
ameaça
agora é 37...Dg3#).
37 Re5! (O GM
israelita
lança
mão de
recurso
extremo,
não temendo
em
levar
seu
rei
para o
centro do
combate).
37... Dg3+ 38 Tf4 Cd2! (Larsen,
por
seu
turno,
encontra as
mais engenhosas
jogadas
para
manter
latente a
sua
ofensiva. Se
agora 39 Cxd2? Dxe3+!,
com boas
chances
para as pretas).
39 c7! Cc4+! 40 Rd4 (Não
servia 40 Rxe6? Dg6+ 40 Rxd5 Dd6+, sustando todas as
ameaças).
40... e5+ 41 Rc5 Cxe3 42 c8=D Dxf4 43 Cg5+! Rg6 (Após
43...hxg5 44 Dh8+ Rg6 45 h5+! Rf5 46 Tf8+, ganhando a
dama).
44 De8+ Rf5 (Extremamente
premido
pelo
tempo, Larsen esqueceu-se de abandonar).
45 De6#
mate! Uma
esplêndida
partida de
ataque,
digna de
tão
aguerridos contendores.
(Ronald
Câmara, in O
POVO, 04.05.1980)
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