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A
história do
xadrez mundial
não é constituída
apenas de
grandes
astros
que se destacaram
pelos
seus
feitos
extraordinários; há
também
aqueles
que contribuíram
com
idéias e
planos
engenhosos
para
enriquecer
sobremodo os
seus
anais.
Este é o
caso do
inglês John Owen
que viveu na
segunda
metade do
século 19,
mas
que,
somente
agora,
passados 100
anos, teve reconhecido o
seu valor.
Reverendo e
enxadrista,
seu
fervor
religioso
era mesclado
por
um
grande
entusiasmo
pela
arte de Caíssa, entremeando
sua
ação
pastoral
com
freqüentes participações
em
torneios e matches
com ases
famosos
como
Paul Morphy e Johannes Zukertort.
Foi,
porém, no
campo da
teoria das
aberturas
que
ele deixou
sua
maior
contribuição, introduzindo
um
esquema de
jogo
sumamente interessante e
original; na
sua
época,
entretanto, foi considerado
muito
arriscado e
exótico.
Decorrido
um
século, o
reverendo Owen voltou à
passarela,
graças aos
esforços de uma
plêiade de
jogadores ingleses
que sacudiram a
poeira do
tempo e exumaram
suas
idéias, dando-lhes
roupagens modernas e
mais adequadas às
atuais
contingências da
prática
magistral.
Para
completar
toda essa
operação
plástica, resolveram
batizar essa
linha de
jogo
com o
sugestivo
nome de “Defesa
Inglesa”.
Parte
integrante do
repertório dos
empreendedores grandes-mestres Raymond
Keene e Anthony
Miles,
esse
esquema
defensivo provocou uma
grande
celeuma e despertou a
atenção de
jogadores
audaciosos
como Hort, Korchnoi e Spassky
que
já tiveram a
coragem e
determinação de usá-lo
em
partidas
importantes e decisivas.
De
comprovados
méritos, o
legado do
reverendo Owen é,
porém,
caprichoso e de
condução
difícil, exigindo de
seus
adeptos
um
perfeito
conhecimento de todas as
suas
nuances.
Como costuma
alertar o
conhecido MN
cearense Francisco Alves dos
Santos – uma das
maiores
autoridades brasileiras no
assunto – “é
preciso
saber
rezar
pela
cartilha do
reverendo Owen,
pois,
em
caso
contrário, se é
severamente castigado
pelo
grave
pecado de conhecer-se
apenas a
metade da
missa”.
Uma
prova disso foi evidenciada no
recente
Torneio
Memorial Pavel Keres,
quando o
jovem
mestre sueco Harry Schussler cometeu a
imprudência de adotá-lo
sem
possuir
um
domínio
completo de
todos os
seus
segredos.
Como demonstramos
em
seguida, essa
estratégia
temerária foi
devidamente punida
pelo
seu
adversário, o
sagaz GM
romeno Mihai Suba.
M. Suba x H. Schussler
(Memorial Pavel Keres, Tallinn,
março de 1983 – Def. Inglesa, A 40) 1
e4 b6! 2 d4 Bb7 3 d5 e6 (Na
histórica
revista francesa “La Stratégie”,
janeiro de 1879, comentando a
partida Owen x Zukertort,
jogada
em Londres, 1878, o
legendário
campeão mundial William Steinitz esclarece
que essas
jogadas
iniciais eram
feitas
pelo
reverendo
inglês
com as pretas e
com as brancas!).
4 a3!
(Para
manter a
forte
pressão
central é
necessário
impedir a
ação do BR das pretas
em b4).
4...g6!?
(O
duplo fianchetto é a
última
novidade surgida na
Defesa Inglesa.
Anteriormente, as
atenções se voltavam
para a
jogada
temática 4...Dh4,
mas,
após 5 Cc3! Dxc4?! 6 e4 Dc5 7 Bg5!,
com a
idéia de
seguir
com 8 Tc1!, as brancas ficam
com
excelente contrajogo
pelo
peão sacrificado).
5 e4
Bg7 6 Bd3 Ce7 7 Ce2 c6? (O
plano de demolição dos
peões
centrais é acertado;
porém,
este
modo de executá-lo é
incorreto.
Exato e
imprescindível é 7...f5,
como recomenda o
mestre
inglês Jim Plaskett,
nos
comentários à
sua
partida
com o sueco Ralf Akesson, Bergsjo, 1981,
publicado no Informador 33).
8 d6!
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(Este
avanço
cria sérias
dificuldades ao
plano de
expansão das pretas. O exemplo
clássico dessa
idéia ocorreu na
famosa
partida Euwe x Najdorf,
Torneio dos
Candidatos, Zurique, 1953: 1 d4 Cf6
2 c4 g6 3 g3 Bg7 4 Bg2 0-0 5 Cc3 c5 6 d5 e5 7 Bg5 h6 8 Bxf6 Dxf6
9 d6! Cc6 10 e3 b6 11 Bd5! Rh8 12 Ce4 Dd8 13 h4!? f5 14 Cg5 Bb7!
15 g4! e4 16 Ce2 Bxb2 17 Cf4 Df6 18 gxf5! Bxa1 19 Cxg6+ Rg7 20
Cxe4 Bc3+ 21 Rf1 Dxf5 22 Cf4!! Rh8 [se 22...Be5 23 Cg3 Dh7 24
Dg4+ Rh8 25 Cg6++-;
ou 22...Bf6 23 Cg3 De5 24 Dg4++-]
23 Cxc3 Tae8 24 Cce2 Tg8? [24...Ba6!?] 25 h5! Tg5 26 Cg3 Txg3 27
fxg3 Txe3 28 Rf2
Te8 29
Te1 Txe1 30 Dxe1 Rg7 [30...Ce5? 31
Dxe5!+-] 31 De8 Dc2+ 32 Rg1 Dd1+ 33 Rh2 Dc2+ 34 Cg2 Df5 35 Dg8+
Rf6 36 Dh8+! Rg5 37 Dg7+, 1-0).
8...Cc8 9 Bc2 c5 10 Cbc3 Cc6 11 h4! 0-0 (Uma
decisão precipitada.
Era
necessário
tomar
medidas acauteladoras
contra o
visível
assalto à
ala do
rei,
mediante 11...h6).
12 Bg5 f6 13 Be3 e5 14 h5 Cd4 15
hxg6 hxg6 16 Cb5 f5? (Já
agora esta
continuação permite a
abertura de perigosas
linhas de
ataque. A
prudência aconselhava 16...a6,
exigindo uma
definição das brancas na
ala da
dama).
17 exf5! Bxg2! (Todo o
plano de
reação das pretas é
passível de
crítica;
isto
não
obstante, merece
admiração a
momentânea
ameaça de
mate: 18...Cf3#).
18 Cexd4! Bxh1 (O
jovem
mestre sueco
não resiste à
tentação e opta
pelo
caminho
mais
arriscado.
Era preferível 18...exd4, impedindo
o
acesso da
dama
branca à
vulnerável
diagonal d5-g8).
19 Cf3! Tb8 (Não é
exagero
afirmar
que as pretas estão
estrategicamente comprometidas. Note-se
que
era perdedor 19...Bxf3? 20 Dxf3 Tb8
21 Dd5+ Rh8 22 0-0-0!)
20 Dd5+ Rh8 21 0-0-0 Bxf3 22 Dxf3 Df6 23 Dd5 g5 (Único
para
conter a
ameaça 24 Th1+).
24 Cc3! (Cumprida a
sua
missão protetora na
ala da
dama,
este
cavalo
passa a
colaborar
decisivamente no
ataque).
24...Bh6 25 Ce4! Dxf5 26 Th1!
Rg7 27 Txh6! (A
execução é realizada de
forma
precisa e
inexorável.
Com
este
sacrifício, o GM
romeno elimina o
último
obstáculo
para a concretização de
sua
ofensiva).
27...Rxh6 28 Cxg5 Dg4 (A
alternativa 28...e4 seria anulada
com 29 Ce6+ Rg6 30 Cxf8+! Dxf8 31
Dxe4+ Rf6 32 Df5+ Rg7 33 Bh6+ Rxh6 34 Dg6#).
29 Dh1+! Rg7 (Se 29...Dh5 30 Cf7+!, ganhando).
30 Dh7+, 1-0. As pretas abandonaram. Uma
partida
instrutiva
em todas as
suas
fases.
(Ronald
Câmara in O
POVO
de 30.05.1983)
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