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Famosa em todo o país, a
culinária mineira tem sido apreciada pelos mais exigentes paladares e pratos
típicos como leitão à pururuca, feijão tropeiro, tutu à mineira e o popular
pão de queijo, ocupam um lugar de destaque no cardápio brasileiro.

Já o "dragão à
mineira" é uma especialidade letal, elaborada por mestres-cucas do
tabuleiro que, na década de 60, formavam uma equipe coesa de analistas e
jogadores de Belo Horizonte, desmentindo a afirmativa atribuída a Otto Lara
Resende de que "mineiro só é solidário no câncer..."
Munidos de atualizados compêndios teóricos, esses
hábeis investigadores verificaram que, na "Variante do Dragão"
(Siciliana, B 70/79), uma simples mudança na ordem de jogadas poderia induzir o
adversário a cometer um equivoco fatal.
E os frutos dessa pesquisa não poderiam ter sido mais
compensadores, quando surgiu a oportunidade de colhê-los por ocasião do
Torneio Zonal Centro (preliminar do campeonato brasileiro), efetuado em Belo
Horizonte, de 15 a 29 de março de 1965, tendo como vítima nada menos do que o
heptacampeão brasileiro, dr. João de Souza Mendes e, como seu algoz, o mestre
mineiro Jarbas Ladeira Filho.
Eis como se processou a estréia oficial do "dragão à
mineira": J. Ladeira x J. Souza Mendes, Zonal Centro,
BHZ, março/ 1965 - PR-Siciliana, B 72
1 e4 d6 2 d4 Cf6 3 Cc3 g6 4 Be2 Bg7 5 f4 c5 6 Cf3 cxd4 7 Cxd4 Cc6 8 Be3 Db6?
9 e5! Cg4 10 Bg1 Dxb2 11 Cdb5 Cgxe5 12 Tb1, 1- 0.
Fiéis à assertiva
de que "mineiro come quieto", os organizadores do Zonal não
cumpriram a praxe de divulgar os boletins do torneio, só o fazendo cinco meses
depois, na esperança talvez de que aparecesse mais uma vítima dessa cilada! E
essa política mineira, ou melhor dizendo, matreira, deu resultado e, no
Campeonato Brasileiro de 1965, efetuado no Rio de Janeiro, no período de 27 de
junho a 17 de julho, este cronista teve desdita semelhante à de Souza Mendes.
Desta feita, o verdugo foi Eduardo Cotta, uma das esperanças do xadrez mineiro,
tragicamente desaparecido em 1967, no auge de sua mocidade.
E.Cotta x R Câmara (Camp. Brasileiro,RJ, junho-julho/ 1965 - Siciliana B 72)
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be2 Bg7 7 Be3 Cc6 8 f4!? Db6? 9
e5! dxe5?? 10 Cxc6, 1-0.
Toda essa sequência acha-se no livro "Sizilianische
Vertedigung",do didata Rolf Schwarz, Hamburgo/1961, bem como nos
ardilosamente atrasados boletins do Torneio Zonal Centro!
É oportuno mencionar que a prática magistral registra
outros exemplos eloquentes dessa linha de jogo, sobressaindo a partida Ariel
Mengarini x Samuel Reshevsky (Camp.Norte-Americano de 1951 - Siciliana B 72):
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 Cc3 Cf6 4 d4 cxd4 5 Cxd4 g6 6 f4 Cc5 7 Be2 Db6? 8 Be3 Bg7 9
e5! Cd7 10 Cf5
Mais sutil é 10 Ce6!?, pois se 10 ... Dxe3? 11 Cd5! é decisivo.
10 ... Dxb2 11 Cxg7+ Rf8 12 Bd2 Cd4 13 0-0 Dxc2 14 De1 Rxg7 15 f5 dxe5 16 Bc4
Db2 17 fxg6 Cf6 18 gxf7 Be6 19 Bxe6 Cxe6 20 Tb1 Da3 21 Txb7 Thf8 22 Rh1 Txf7 23
Dxe5 Td8 24 Dxe6 Txd2 25 Ce4 De3 26 Txe7 Td7 27 Dxf7+, 1-0.
Resta agora tentar explicar por que Reshevsky, Souza Mendes e
este cronista adotaram a mesma continuação defeituosa 8 ... Db6?.
Quanto a mim e, provavelmente, no que diz respeito aos meus
companheiros de infortúnio, a causa determinante seria o conhecimento da
seguinte linha teórica 1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be2
Bg7 7 Be3 Cc6 8 0-0 0-0 9 f4 e, neste caso, isto é, após o roque de ambos
os lados, a continuação mais ambiciosa para as pretas é exatamente 9 ...
Db6!, quando o avanço 9 e5!? é apenas merecedor de consideração e não
tem caráter decisivo, como ocorreu nos episódios aqui focalizados, por causa
da ausência do roque das pretas!
Para melhor elucidar o assunto, transcrevemos a principal
sequência dessa alternativa (8 0-0 0-0) 9 ... Db6!
10 e5 dxe5 já agora essa captura é indicada e não condenada como
aconteceu in Cotta-Câmara) 11 fxe5 Cxe5 12 Cf5 Dxb2! (in Ladeira-Souza
Mendes, essa jogada foi catastrófica) 13 Cxe7+ Rh8 14 Bd4 Db4! 15 Bxe5 Dxe7
16 Dd4 Ch5 17 Bxg7+ Cxg7 18 Bd3 Be6 e as brancas não tem suficiente
compensação pelo peão sacrificado, conforme análise do gm Eduardo Gúfeld,
no seu livro "A Defesa Siciliana".
Por último, parodiando
Voltaire, lembramos:
"Analisai,
analisai, alguma coisa sempre fica ..."
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