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A mais bela partida
de xadrez de um torneio costuma ser agraciada com um prêmio
especial,
num reconhecimento material de seus méritos e qualidades estéticas. Assunto
merecedor do interesse de todo enxadrista, teve como maior cultor o francês François Le
Lionnais. Nascido em Paris (03.10.1901) e falecido na localidade francesa de
Boulogne-Billancourt (13.03.1984), foi uma personalidade de múltiplas
atividades e diversas profissões engenheiro, matemático, físico e fecundo
escritor.
Para o mundo do xadrez, porém, tornou-se
conhecido como um notável compositor de problemas e extraordinário publicista,
ganhando fama com seus artigos e crônicas na revista francesa "Les Cahiers
de L’Échiquier Français". Como fruto de seu trabalho à frente dessa
publicação especializada, escreveu a monografia "L’Ouverture Française"
que recebeu os aplausos dos mais exigentes críticos. Não satisfeito com essas
meritórias iniciativas, elaborou juntamente com o mestre austríaco Ernst Maget
um original "Dictionnaire des Échecs"
que se tornou uma fonte
obrigatória de consulta e serviu de paradigma a outras publicações do
gênero.
A maior contribuição enxadrística de Le
Lionnais, entretanto, foi a magnífica antologia intitulada "Les Prix de
Beauté aux Échecs", na qual ele faz um estudo detalhado sobre as
qualidades essenciais de uma partida digna de tão significativo laurel, com uma
história completa sobre a matéria, abrangendo mais de 200 partidas premiadas
em diversas competições magistrais, enriquecidas sobremodo com os seus
excelentes comentários, nos quais se fundem, numa admirável síntese, o homem
de letras e o abalizado teórico !
Sobre a importância e valor de Le
Lionnais, eis o que disse a seu respeito o conhecido teatrólogo e cronista de
xadrez Fernando Arrabal: "Em certos países, há
homens que as autoridades têm como reservas nacionais, como se eles fossem
possuidores de poços de petróleo ou minas de ouro ! Que título não deveria
merecer em tais países um homem do porte de Le Lionnais !"
Como fecho desse registro sobre tão
expressiva personalidade, extraímos de sua citada obra "Os Prêmios de
Beleza no Xadrez" uma famosa partida – considerada pelo didata Irving
Chernev entre as dez melhores obras-primas de todos os tempos !
Jogada no 1º Torneio Internacional de
Hastings, em 1895, foi considerada a mais bela desse certame magistral e teve
como contendores: de um lado, o primeiro campeão mundial William Steinitz
e, do
outro, o mestre alemão
Kurt von Bardeleben.
 1º
Torneio Internacional de Hastings, 1895
Brancas: Willian Steinitz
Pretas: Kurt von Bardeleben
PR – Giuoco Pianno - ECO
C 54
1 e4 e5 2 Cf3 Cc6
3 Bc4 Bc5 4 c3 Cf6 5 d4
Uma alternativa ardilosa é 5 0-0!?, pois idêntica continuação é
comprometedora para as Pretas, a saber: 5... 0-0?! 6 d4 exd4 7 cxd4 Bb6 8 e5 Ce8
9 Bg5 Ce7 10 De2! H6 11 Bh4 Rh8 12 Cc3 f6 13 exf6 Cxf6 14 Ce5 d5 15 Bxd5! Cexd5
16 Cg6+ Rg8 17 Cxd5 Tf7 18 Cde7+ Rh7 19 Dd3 Dxd4 20 Cf8+ Rh8 21 Dh7+!! Cxh7 22
Cfg6 mate – partida R. Câmara – N. Bastos, Fortaleza, 1948. NR – Como o
xadrez é pleno de nuances: na crônica
"Dragão à
mineira" a ausência do roque foi fatal; nesta, a presença foi a causa
do desastre!
5...exd4 6 cxd4 Bb4+ 7 Cc3 d5 8 exd5
Cxd5 9 0-0 Be6 10 Bg5 Be7 11 Bxd5 Bxd5 12 Cxd5 Dxd5 13 Bxe7 Cxe7 14 Te1
Concluída a
abertura, a posição acusa superioridade das Brancas: para compensar o peão
isolado, elas têm as peças coordenadas, enquanto que as Pretas ainda não
completaram o seu desenvolvimento e terão de rocar de modo artificial,
enfraquecendo sobremodo sua situação.
14...f6 15 De2 Dd7 16 Tac1 c6 17
d5!!
Considerado "o pai da escola moderna", Steinitz efetuou com este
avanço um inspirado sacrifício de peão, com o fim de abrir caminho para a
entrada triunfal de seu Cavalo no território inimigo !
17...cxd5 18 Cd4 Rf7 19 Ce6! Thc8 20
Dg4 g6 21 Cg5+ Re8 22 Txe7+!!
Após uma
magistral aula estratégica, Steinitz passa a executar uma decisiva
demonstração tática ! É oportuno observar que a posição encerra
interessantes particularidades: à exceção do Rei e peões, as demais peças
brancas estão atacadas e, mesmo assim, o lance do texto inicia uma combinação
fulminante !
22...Rf8
A Torre era "tabu": 22...Dxe7? 23 Txc8+ era conclusivo,
enquanto que 22...Rxe7? 23 Te1+ Rd6 24 Db4+ Rc7 25 Ce6+ Rb8 26 Df4+ Tc7 27 Cxc7
e ganham.
23 Tf7+
De forma graciosa, a TR continua sua missão provocativa ! Já 23 Txd7?? ensejaria
23...Txc1+, seguido de mate.
23...Rg8
Se 23...Dxf7 24 Txc8+ era decisivo.
24
Tg7+!!
"Que Torre insolente !" – teria exclamado por certo o Rei preto
se falar pudesse !
24...Rh8
As outras alternativas eram igualmente desastrosas: a) 24...Rxg7 25 Dxd7+; b)
24...Dxg7 25 Txc8+; c) 24...Rf8 25 Cxh7+ Rxg7 26 Dxd7+ e ganham.
25 Txh7+!!
A ciranda de
xeques atinge o seu clímax ! Para o êxito de toda a seqüência combinatória
era imprescindível desobstruir a coluna da TR, como se verá em seguida. Agora,
recorremos ao comentário final feito por Le Lionnais, em sua antologia:
"Nesta posição, Bardeleben ausentou-se da sala de jogos e deixou o seu
relógio ultrapassar o tempo de reflexão. Com isto, a partida foi considerada
ganha em favor de Steinitz por forfait de Bardeleben. Esse último apresentou
como desculpa de sua conduta, os aplausos frequentes e bastante prolongados com
que a platéia saudava os vitoriosos. Essa escusa foi considerada procedente
pela Comissão do Torneio. O velho campeão encarou toda essa situação com
grande elegância e demonstrou que, a partir desse ponto, havia mate forçado em
dez lances, a saber: 25...Rg8 26 Tg7+ Rh8 27 Dh4+! – eis o motivo da
necessidade da eliminação do PTR das Pretas – 27...Rxg7 28 Dh7+ Rf8 29
Dh8+ Re7 30 Dg7+ Re8 31 Dg8+ Re7 32 Df7+ Rd8 33 Df8+ De8 34 Cf7+ Rd7 35 Dd6
mate"
Por fim, diante de tão magnífica jóia
enxadrística, só resta lembrar o verso imortal do poeta inglês John Keats:
"Uma coisa bela é uma
alegria para sempre !"
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