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Numa partida de
xadrez, qual era a maior vantagem que um Mestre concedia a um Aficionado,
obtendo êxito na maioria dos casos? É claro que um simples Peão era
irrisório, bem como um Bispo ou um Cavalo; já uma Torre era uma vantagem
considerável, embora a mais significativa fosse uma Dama.
Como
esse tipo de disputa envolvesse vultosas apostas em dinheiro, havia interesse em
dificultar o máximo a tarefa do mestre, daí surgindo a idéia de deixar de
lado toda e qualquer vantagem material e escolher um Peão - de preferência o
de "g2" ( Peão do Cavalo do Rei ) - cobrir a sua "cabeça"
com um pedaço de papel colorido e estabelecer que o Mestre só podia triunfar
se a estocada final fosse dada por essa peça. Conhecida pela denominação de
"Pion
Coiffé", essa modalidade de
combate tornou-se muito popular no século XVIII, como esclarecem os didatas
François
Le Lionnais e Ernst Maget em seu excelente
"Dictionnaire des Échecs".
Com o desenvolvimento enxadrístico e conseqüente divulgação das principais
aberturas, amplo estudo dos finais e meio-jogo, a enorme distância que existia
entre os mestres e a extensa legião dos chamados
"pousseur
de bois" ("empurradores
de madeira",
ou seja, "capivaras")
diminuiu sensivelmente e, nos dias atuais, nem mesmo o gigante do tabuleiro
Garry
Kaspárov, com todo o seu
engenho e arte, tem condições de conceder a vantagem do
"Pion Coiffé" a um simples
"wood-pusher"
integrante da "banda
do Sting"! (Recentemente,
em New York, Kaspárov venceu numa simultânea a relógio os cinco componentes
do conjunto desse cantor inglês).
Durante o
período em que participei ativamente de competições - de 1946 a 1972 - só
tive uma única oportunidade de aplicar o "Pion
Coiffé". Naturalmente, não
havia de minha parte a obrigação de só vencer com a concretização desse
dificílimo detalhe; ele aconteceu normalmente, no curso da combinação
decisiva. O meu adversário foi o talentoso mestre e octocampeão cearense
Fred
Saboya, por ocasião do
Campeonato do "Clube de Xadrez do
Ceará", em 1965. Além dessa
singularidade, referida partida ocupa um lugar de destaque no meu acervo
enxadrístico.
CAMPEONATO
DO C.X.C.
Fortaleza, 1965
Brancas - Ronald Câmara
Pretas - Fred Saboya
PR - Sistema Gurgenidze ( ECO B
15 )
1e4
c6 2d4 d5 3 Cc3 dxe4 4 Cxe4 g6!?
Uma fusão da Defesa Pirc com a Caro-Kann, o sistema adotado pelas
Pretas foi estruturado pelo gm georgiano Bukhuti Gurgenidze. De uso pouco comum,
pode ser uma surpreendente arma de defesa.
5
Bc4! Bg7 6 Cf3 Cf6
A jogada 5 Bc4! dificulta o desenvolvimento das Pretas. Se agora 6
... Bg4? 7 Bxf7+! Rxf7 8 Cfg5+, com vantagem. Por outro lado, 6 ... Cd7? enseja
7 Bxf7+! Rxf7 8 Cfg5+ Re8 9 Ce6 Da5+ 10 Bd2 Db6 11 Cxg7+
Rf7 12 Ce6! Rxe6 13 Cg5+ e ganham.
7
Cxf6+ exf6
A alternativa 7 ... Bxf6 ocorreu na partida J.Sherwin x A.Denker,
Campeonato Norte-Americano de 1968, com o seguinte desenrolar: 8 c3 O-O 9
Bh6 Bg7 10 Dd2! Cd7 11 h4! Cf6 12 h5 Bxh6 13 Dxh6
Cg4 14 Dg5 Rg7 15 hxg6 fxg6 16 Ce5! Tf5 17 Txh7!
Rxh7 18 Dxg6 Rh8 19 O-O-O, abandonam.
8
O-O O-O 9 h3! Be6
Disposto a resolver o problema de desenvolvimento do seu BD, o mestre
cearense resolve trocá-lo, embora à custa de um Peão débil em
"e6". Era preferível 9 ... Te8 como ocorreu nas partidas Andersson x
Ljubojevic, Wijk aan Zee, 1973 e Gheorghiu x Hug, Bath, 1973.
10
Bxe6 fxe6 11 Bf4 Cd7 12 Te1 Te8 13 c3!
A estratégia das Brancas é evidente:
pressionar o PR das Pretas e tentar impedir que elas desfaçam dessa debilidade.
Neste sentido, a jogada do texto é de grande utilidade, pois, se 13 ...
e5 14 Db3+ Rh8 15 dxe5 fxe5 16 Cg5!, com forte ataque. Note-se
que, neste caso, 16 ... Db6?? permite a realização do gracioso "étouffé":
17 Cf7+ Rg8 18 Ch6+ Rh8 19 Dg8+! Txg8 20 Cf7 mate!
13
... Cb6 14 Te4 Cd5 15 Bg3 Dd7 16 Dd2 Tad8 17 Tae1
Bf8 18 De2 Rf7 19 c4 Cb6
A tensão central foi levada ao máximo
e, tanto quanto possível, o condutor das pretas defendeu-se tenazmente. Para
isto, contudo, teve que dispor suas forças em situação aglomerada enfraqueceu
sobremodo o seu roque. As Brancas estão superiores. Como, porém, materializar
essa vantagem? Foi esta pergunta que me fiz neste momento crítico e, durante
bastante tempo, dissequei a posição à procura do plano exato.
20
Tf4!
De imediato, ameaça o fulminante duplo 21 Ce5+. A idéia da jogada
adotada é bem mais complexa e inicia uma inspirada combinação.
20
... Rg7
A defesa com 20 ... Bd6 seria refutada mediante 21 Th4 Rg8
22 Bxd6 Dxd6 23 c5, ganhando uma peça.
21
Te4 Rf7 22 Tf4
Repetindo a posição para ganhar tempo e poder calcular em todos os seus
detalhes a seguinte combinação.
22
... Rg7 23 Txf6! Rxf6 24 De5+ Rf7 25 Dh8!
Importante papel desempenha esta jogada em toda a seqüencia
combinatória: renova a ameaça de duplo e impede o retorno do Rei à última
fila.
25
... Bg7
A reação natural. Quanto à alternativa 25 ... Cxc4 26 Cg5+
Re7 27 Dxh7 Rf6 28 Ce4+ Rf5 29 Dh4, com mate à vista.
26
Cg5+ Rf6 27 Cxh7+!
Esta captura encerra um detalhe de suma importância: impossibilita o
posterior acesso do Rei à coluna da Torre.
27
... Rf7
Era igualmente perdedor 27 ... Rf5 28 Te5+! Bxe5 29 Dxe5
mate!
28
Cg5+ Rf6 29 Be5+!!, as Pretas abandonaram. O
"Pion
Coiffé" surgiria após 29 ...
Rxg5 30 f4+ Rf5 31 g4 mate!
Essa partida decidiu o 1º lugar
do campeonato do "Clube de Xadrez do Ceará" de 1965 e recebeu o
prêmio de beleza dessa competição.
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