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A
mais modesta peça do xadrez é o Peão, representando no curso da luta o papel
da Infantaria que vai desbravando o terreno para que as demais forças possam
avançar e exercer seu poderio. Sua missão é altamente significativa e deve
ser levada a efeito com todo o cuidado.
"Os peões são a alma do xadrez e de sua boa ou má colocação depende
muitas vezes o resultado de uma partida"
é um axioma clássico, de autoria do
grande François-André
Philidor, que deve ser lembrado
sempre para mostrar quão importante é o trabalho a ser desenvolvido por essa
aparentemente singela figura.
É de se
notar ainda um detalhe de suma importância : o Peão é a única peça que não
tem a faculdade de arrepender-se, isto é, não pode voltar e seu movimento
implica necessariamente na diminuição de sua capacidade locomotora. À medida
que ele se distancia de sua casa de origem, perde um pouco de sua mobilidade. É
bem verdade que, ao conseguir atingir à oitava casa, é recompensado por tão
meritória façanha e sofre uma metamorfose, passando a ser um Bispo, uma Torre,
um Cavalo e até mesmo uma Dama, de acordo com as preferências de cada um e as
circunstâncias da posição.
Nem
sempre, porém, foi assim. A princípio, só podia transformar-se em uma peça
que não estivesse mais em jogo; posteriormente, essa faculdade estendeu-se às
demais peças, com exceção da Dama. Os moralistas se insurgiram e não
aceitaram a bigamia do Rei, enquanto que os teóricos machistas não concordaram
que o Peão perdesse sua masculinidade e mudasse de sexo! Houve muita
resistência e somente após um século de debates, admitiu-se que um Peão, ao
alcançar a última casa, passasse a ser Dama, mesmo havendo outra em jogo.
Atualmente, o sonho, a máxima aspiração de todo Peão que se preza é mudar
de 'sexo' e ser coroado Rainha.
O movimento
do Peão não tem sido o mesmo no decorrer da evolução enxadrística. Somente
a partir de 1550, é que se permitiu que ele andasse inicialmente duas casas. O
motivo determinante disso é que as aberturas se tomaram estereotipadas e
habitualmente os dois primeiros lances de cada lado eram feitos com o mesmo
Peão, surgindo daí a necessidade de movimentá-lo duas casas de uma só vez,
faculdade essa que foi estendida posteriormente para todos os Peões.
Outra
particularidade do Peão é a sua maneira de capturar. Diferentemente das outras
peças, que se movimentam e capturam de uma só maneira, os Peões marcham
verticalmente e capturam de forma oblíqua. Conforme os historiadores, essa
singularidade deriva da circunstância de que o soldado a pé, ou seja, a
infantaria, no decorrer do combate, atacava e matava lateralmente. Isso
evidentemente ocorria nas lutas de antanho e o xadrez em suas origens traduziu
fielmente essa ocorrência.
Há ainda um detalhe importante e curioso relacionado com a maneira de capturar
do Peão. É a chamada tomada "en
passant", ou seja, na passagem.
Sabemos que ele de início pode andar duas casas de uma só vez e que captura de
través. Assim sendo, um Peão colocado na 5ª casa ataca e pode capturar as
peças inimigas que estejam situadas nas casas oblíquas contíguas. Por causa
disso, um Peão adversário que se encontre na casa de origem e faça o seu
primeiro movimento, utilizando-se da faculdade de poder andar duas casas de uma
só vez, fica sujeito à captura por parte dos Peões contrários que estejam
localizados na 5ª casa, lateralmente.
O
diagrama nº 1 focaliza um problema engenhoso, comportando duas capturas
"en
passant"
por
parte das Pretas e duas capturas "en
passant" por parte das Brancas.
De autoria do famoso compositor alemão Wolfgang
Pauly (matemático e astrônomo - ele
chegou a descobrir um cometa - Pauly foi um dos mais destacados problemistas de
sua época) tem o seguinte enunciado: as Brancas jogam e dão mate em três
lances!! O seu grande mérito é utilizar de forma instrutiva a captura
"en
passant" como tema principal,
senão vejamos:
1
c4, com as seguintes opções por parte das Pretas: a) 1
... dxc3e.p. 2 g4+ fxg3e.p. 3 e4 mate!; b)
1 ... c5 2 bxc6e.p. e5 3 dxe6 mate!; c) 1
... e5 2 dxe6e.p. c5 3 bxc6e.p. mate!
Já o diagrama nº 2 mostra a posição crítica de uma partida de campeonato
entre dois professores universitários ingleses. O condutor das Brancas, que era
professor de Lógica, jogou 1 Bg2 e
anunciou eufórico: "Xeque-
mate"! Seu adversário,
catedrático de Retórica, contestou incontinenti com 1
... d5 e disse: "Alto
lá, meu caro! Você é que leva xeque-mate".
Recorrendo
à logística, o emérito professor retrucou:
"Seu
Peão de modo algum pode alcançar a casa "d5" e defender o mate,
pois, é capturado "en passant" pelo meu Peão de "c5" e,
deste modo, o meu xeque-mate persiste!"
Segundo
rezam as crônicas, ainda hoje, já grisalhos e alquebrados pela marcha
implacável do tempo, estão discutindo o resultado da partida!
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