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Os anais enxadrísticos registram ocorrências verdadeiramente extraordinárias
e surpreendentes, envolvendo as mais diversas e curiosas situações. Assim como
encontramos jogadores bissextos que se notabilizaram somente com uma partida,
existem também compositores de finais que garantiram o seu lugar na história
com uma produção escassa, mas bastante significativa.
Ainda mais espantoso e admirável é o caso do mestre espanhol
José
Sanz Aguado que
assegurou sua "imortalidade enxadrística" apenas com um final,
elaborado no decorrer de uma partida jogada contra o seu conterrâneo
Martin
Esteban Ortueta,
em Madrid, 1933.
De
rara beleza, é uma autêntica jóia, de intenso brilho, fadada a ser apreciada
"per
omnia saecula saeculorum",
confirmando o famoso verso do poeta inglês John Keats:
"uma
coisa bela é uma alegria para sempre"...
Ao
tomar conhecimento dessa obra- prima,
Tartakover
não pode conter o seu entusiamo e fez questão de mostrá- la ao famoso
compositor francês Henri
Rinck, na
esperança de que esse finalista pudesse aproveitá- la para fazer um estudo
artístico.
O
veredicto de Rinck foi simplesmente consagrador:
"Todo esse
final é de uma estonteante perfeição artística, não precisando ser
acrescentado ou diminuído em nada para que seja incluído entre as melhores
produções do gênero !"
A
posição do diagrama focaliza o seu momento crítico. Neste instante, de
pretas, Sanz continuou com 1 ... Td2,
penetrando resoluto na sétima fila. Ortueta defendeu- se com 2
Ca4, mas foi surpreendido com 2
... Txb2!
"Incrível,
mas verdadeiro",
disse Tartakover sobre esta captura.
Após 3 Cxb2, seguiu- se 3
... c3!, não permitindo 4 Cd3, em vista de 4 ... c4+ 5 Rf1
cxd3 6 Re1 c2 7 Rd2 Be3+!. Por causa dessa variante, Ortueta contra-
sacrificou com 4 Txb6,
esperando assim frustrar os planos das pretas de coroação. Para contestar esse
intento, Sanz prosseguiu com 4 ...
c4! - uma surpreendente jogada de repouso que reativa a ameaça 5
... c2.
Numa
tentativa desesperada de salvação, as brancas jogaram 5
Tb4 e, aparentemente, resolveram todas as suas dificuldades. Estava
escrito, porém, que os peões pretos realizariam prodígios para alcançar o
triunfo e, agora, entra em cena o terceiro personagem, complementando o
magnífico trabalho de seus companheiros: 5
... a5!!, forçando a capitulação das brancas.
A vitória das pretas se apresenta sob duplo aspecto: vertical ( 6 Txc4 cxb2!
) ou horizontal ( 6 Tb8 c2! ). Por outro lado, se 6 Cd3 cxd3 7
Th4+ Rg8 8 Rf2 c2 9 Tc4 d2!, e ganham.
Na
apreciação que fez sobre esse magnífico final, Tartakover designou os peões
pretos como sendo "acrobáticos",
em decorrência das manobras engenhosas que efetuaram para alcançar o triunfo.
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