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Nas
cortes da Idade Média, os monarcas eram conhecidos não apenas pelo
prenome, mas, também pela característica predominante de seu físico,
temperamento ou modo de agir! Assim, na história da realeza européia,
encontramos: na Alemanha,
Frederico I - o Belicoso e
Frederico IV- o Pacífico; na França,
Luiz II- o Gago e
Luiz VI- o
Gordo; e na
Inglaterra, João Sem
Terra e
Ricardo
I
- Coração de Leão.
No reino de Caissa, existem igualmente
príncipes postulantes ao trono enxadrístico que, além do nome de batismo,
têm um epíteto elucidativo de sua personalidade. É este o caso do letão,
naturalizado espanhol,
Alexey
Shírov que
atravessa uma forte crise em sua carreira, fazendo por merecer o apelido
de "o
Baratinado", ou seja,
mentalmente perturbado, intercalando boas e más atuações e, deste modo,
deixando inquieta a extensa legião de seus
admiradores.
"Ora – há de contestar por certo o leitor
– como admitir semelhante situação, se ele é o atual vice-campeão da FIDE,
por força do match que disputou com Anand no ano 2000, válido pelo cetro
mundial?!"
Acontece que foi exatamente nesse duelo que ficou patenteada a sua
instabilidade emocional, não pelo fato de ter sido derrotado, mas, sim
pela maneira como isto ocorreu: sem preparo técnico, destituído de ambição
e demonstrando apatia em lutar pelo título de campeão, ele teve um
desempenho açodado e comprometedor. Somente na quarta partida, quando as
suas chances eram praticamente nulas, esboçou uma reação desesperada,
adotando uma estratégia quase suicida. O modo como atuou no embate com
Anand foi completamente diferente da seriedade, determinação e espírito de
luta revelados no vitorioso encontro que travou com Kramnik em 1998, para
definir qual dos dois seria o desafiante de Kaspárov. Pouco tempo depois
desse expressivo triunfo e ainda extenuado com o esforço feito para
consegui-lo, Shírov cometeu a imprudência de aceitar o convite para jogar
um forte torneio internacional na Alemanha. O resultado dessa atitude precipitada foi dos mais calamitosos,
ficando Shírov na última colocação e com isso diminuindo sensivelmente a
sua cotação na bolsa de valores. Por causa desse insucesso, os
patrocinadores envolvidos no programado match entre Kaspárov e Shírov,
"roeram a corda" e desfizeram o prometido acordo financeiro! Em
vista dessa evidência, o pragmático Kaspárov – fiel ao seu lema
utilitarista "no money, no music", isto é, "sem dinheiro, não
há diversão" - tornou pública a impossibilidade de cumprir o que
havia previamente acertado, dando como fora de cogitação o seu match com
Shírov. Desde então, surgiu nos jornais, revistas e até mesmo na Internet
uma série de acusações de ambas as partes, numa desgastante e improdutiva
troca de insultos e zombarias.
Em face do vultoso prejuízo
financeiro sofrido por Shírov (não só pelo fato de não ter recebido até
hoje o prêmio a que fez jus pela sua vitória diante de Kramnik, mas,
também, pelo que deixou de usufruir no projetado match com Kaspárov) - ele
passou a nutrir uma grande mágoa de Kaspárov, traduzida num sôfrego desejo
de derrotá-lo no tabuleiro! Contudo, é lamentável se verificar que esse
ressentimento tem sido negativo para Shírov, decaindo a qualidade de seu
jogo e interferindo no seu ânimo. Em mais de uma vintena de partidas
jogadas com Kaspárov, ele não conseguiu ainda uma vitória sequer! E o mais
grave é que Shírov, quando se defronta com Kaspárov, procura vence-lo com
suas próprias armas e dentro de seu terreno predileto! Assim aconteceu há
pouco tempo no torneio de Wijk aan Zee, quando Shírov estava na liderança
desse certame e, ao invés de jogar diante de Kaspárov com cautela e
prudência, resolveu enfrentar uma perigosa variante adrede preparada pelo
seu astuto adversário e a conseqüência dessa política "kamikaze"
não podia ser outra: uma implacãvel derrota, com efeitos desastrosos nas
partidas seguintes e sérias implicações na sua classificação
final!
Logo
em seguida, no Torneio de Linares, continuou insistindo em enfrentar seu
arquiinimigo adotando uma linha de jogo reconhecidamente inferior! Pior
ainda: o próprio Shírov em 1996 derrotou Timman que teve a mesma ousadia!
Para completar todo esse imbróglio, essa partida acha-se extensamente
comentada por Shírov em seu excelente livro "Fuego en el
Tablero" !
Em
face do exposto, chega-se à conclusão de que nem mesmo Freud, com toda a
sua experiência e conhecimentos saberia explicar uma conduta desse
gênero!
Por
último, para culminar os seus dissabores e inquietações, houve a sua
separação conjugal e, mais recentemente, o seu retorno à pátria onde
nasceu, juntamente com a nova companheira sentimental, a enxadrista
lituana Viktoria Cmylite.
Comentamos em seguida o
"haraquiri" cometido por Shírov diante de
Kaspárov.
Super Torneio Magistral Linares, 04
de março de 2001. Brancas – Garry Kaspárov Pretas - Alexey
Shírov Abertura Española – ECO C80
1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3
Bb5 a6 4 Ba4 Cf6 5 0-0 Cxe4 6 d4 b5 7 Bb3 d5 8 dxe5 Be6 9 Cbd2 Cc5 10 c3
d4 11 Cg5!
Em seu livro
"Fuego en el Tablero", ao comentar a partida que disputou com Timman em Wijk aan Zee,
1996, Shírov afirma: "Desde
que Kaspárov reviveu este velho sistema, ele voltou a ser analisado. É tão
compacto que, em algumas linhas tem que se ir até o final para estabelecer
as conclusões corretas".
Ora,
se Shírov tivesse lido o livro
"No Mundo dos
Trebelhos", no
capítulo intitulado "Um novo cavalo de Tróia!?", teria verificado que o
lance do texto fez a sua estréia na prática magistral pelas mãos de
Kárpov, na 10ª partida de seu match com Korchnoi, em disputa do título
mundial, em Baguio, 1978!
11...Dxg5 A
alternativa 11...dxc3 já foi castigada na 10ª partida do match entre
Kaspárov x Anand, New York, 1995 .
12 Df3
0-0-0 Por que não
12...Rd7? A resposta pode ser encontrada na partida Eric Brondum x Brinck
Claussen, Dinamarca, 1979: 13 Bd5 Bxd5 14 Dxd5+ Bd6 15 cxd4 Cxd4 16 Cc4!
Ce2+ 17 Rh1 Df5 18 Cxd6 Dd3 19 Dxf7+ Rc6 20 Be3! Taf8 21 De7 Dd5 22 Tad1
Cd3 23 e6 Dxd6 24 Dxd6+ cxd6 25 Txd3 d5 26 Te1 Cf4 27 Tc3+, abandonam.
Após 27…Rb7 28 e7 era decisivo .
13 Bxe6+ fxe6 14
Dxc6 Dxe5 15 b4 Dd5 16 Dxd5 exd5 17 bxc5 dxc3 18 Cb3 d4 19 Ba3 g6! 20 Bb4
Bg7 21 a4 Rd7 Início de engenhoso plano que tem como objetivo penetrar com
o Rei em "c4" e cooperar na ofensiva das pretas na ala da Dama. Este plano
foi concretizado por Smyslov contra Timman, no Campeonato Europeu por
Equipes, 1979 .
22 axb5 axb5
Até aqui esta partida é idêntica ao encontro entre Shírov x
Timman, Wijk aan Zee, 1996. Era lícito supor que Shírov havia descoberto
uma nova idéia em favor das Pretas! Na realidade, o que se verá é
exatamente o oposto, pois Kaspárov, em lugar de 23 Tad1 adotado por
Shírov, enveredou por uma variante bem mais prometedora e
eficiente!
23
Tfd1! Esta
continuação faz parte de um esquema visando impedir o acesso do Rei preto
à ala da Dama .
23...Re6 24
Tac1 Agora a
planejada excursão do Rei fica impossibilitada, pois, se 24...Rd5? 25
Txc3 .
24...The8 Para fazer esta jogada Shírov levou uma hora, numa confissão
tácita de que foi surpreendido com a estratégia de seu
adversário!
25 Rf1 Rf5 26 c6!
g5 27 Ba5 Td6 28 Bb4 Tdd8 29 Td3! O bloqueio dos peões pretos é total e, em breve, serão
dizimados .
29...g4 30 Bc5 Re4
31 Tcd1 --
31…h5? De acordo com a opinião do Fritz – companheiro
eficiente, discreto e silencioso de todo analista – merecia consideração
31...Te6, uma vez que, após 32 Bxd4 c2 33 Te3+ Rf5 34 Tde1 Bxd4 35 Txe6
Bc3 36 T(1)e4 Td1+ 37 Re2 c1=D 38 Cxc1 Txc1 e as Pretas teriam ainda
chances de sobreviver!
32 Cxd4 b4? 33 Te3+
Rd5 34 Bxb4! Rc4 Somente agora, prestes a assinar o termo de rendição, o Rei
consegue chegar ao seu destino! Era inútil a tentativa 34...Bxd4 em vista
de 35 Bxc3 Te4 36 Re2! e ganham .
35 Bxc3 Txe3 36
fxe3 Tf8+ É
evidente que 36...Rxc3 seria punido com 37 Ce2+ .
37 Re2 Rxc3 38
Ce6!, as Pretas abandonaram. Após 38...Tf7 39 Td7 era decisivo . |