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Em Caíssa (64 Crônicas de Xadrez), o Mestre
Internacional Hélder Câmara dá uma aula em cada texto.
Não apenas nestes, mas em qualquer trabalho que escreva sobre
o jogo filho dos deuses e, por isso mesmo, cercado de
demônios. Dizer que analisa as partidas com mestria é resvalar
para a obviedade. Não é por acaso que manteve por mais de três
lustros, sem interrupção, um apreciadíssimo espaço dedicado ao
xadrez no Diário Popular, de São Paulo.
O xadrez entrou na vida e na alma de
Hélder Câmara tal como uma chama votiva que se não apaga,
ascendendo-o a Mestre Internacional e dando-lhe um currículo
invejável de vitórias, no Brasil e no exterior, que, para
detalhá-lo, sem falso exagero, seria necessário um opúsculo
somado à obra. O seu nome, Hélder Câmara - emblemático
no País inteiro - é uma estrela-guia do cometa no universo
enxadrístico e a cauda que o acompanha há de ser o colar de
feitos dentro do cosmo de Caíssa. |
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Repetiremos apenas que Hélder
Câmara é uma personalidade multifacetada. Xadrez à parte, em
conversas descontraídas, não sabemos se estamos diante do
compositor popular, versado na história dos que a fizeram tão
bela, do poeta lírico de ressonâncias parnasianas, ou do bem
humorado comentarista das extravagâncias cotidianas.
Enxadrista desde a infância,
nunca, ao correr dos anos, perdeu a jovialidade. Aquela
jovialidade dos sábios, com a consciência de que o corpo envelhece
com o passar do tempo, mas que a jovialidade se renova e se apura
dentro desse mesmo percurso.
Hélder Câmara é de um talento
notável, traço de berço dos Câmaras. Se o xadrez levou-o aos
píncaros - e dentre os escolhidos, poucos como ele são eleitos –
nem por isso deixou de ser a criatura humaníssima que sempre foi.
Isto é o que define uma personalidade. O Hélder de ontem é o de
hoje. A ele se agregou a gama de conhecimentos gerais, que fez
dele o homem culto, voltado, no seu caso, para o oceano
enxadrístico, mas de janelas abertas para o mundo lá fora, com
suas benquerenças e precariedades.
Tomemos a primeira crônica do
livro – Caíssa – que dá título ao mesmo. Só esta, apenas
esta, lampeja e ilumina o tom e o tônus do escritor brilhante, que
sabe escrever como poucos, melhor e de alcance artístico maior do
que tantos cronistas do campo literário. E termina o trabalho com
um belo soneto a Caíssa, em tessitura lírica e melhor
elaborada do que muitos poetas de livros na praça e aplausos da
crítica.
Sempre aliou, com maestria,
análises de partidas com informações variadas, valiosas e
oportunas do mundo enxadrístico, quantas delas de não fácil acesso
dos aficionados do jogo. E quanta vez insere um vívido humor, só
dele, dando leveza de trato às “análises complicadas”.
Estas 64 crônicas (uma, para
cada casa do tabuleiro) compõem o debuxo e o espelho fiel de uma
personalidade que já desenhou, com brilho, a sua estrela na
História do xadrez, embora continue pulsantemente criador.
Recebeu a aura bendita de
Caíssa e transmudou-a na referida estrela-guia dos seus dias,
no universo mágico do xadrez.
Esta obra - Caíssa (64
Crônicas de Xadrez) - é um dos lampejos dessa estrela.
SP. 15.01.2006
Caio Porfírio Carneiro
- escritor e enxadrista.
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