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O
Grande
Granda
Não,
ninguém
com a
objetividade pragmatista do Great
Gatsby,
quintessência do
esnobismo e do
requinte,
que a
oportuna
imaginação de Scott Fitzgerald expôs
à
sensibilidade do
mundo,
mas
alguém
bem
nosso,
latino e apaixonado,
como
só os nascidos
nos
bolsões da
miséria terceiro-mundista podem
compreender e
admirar.
Alguém
por
quem
torcer,
por
quem
chorar.
Alguém deste
lado do
paraíso,
como o
Grande Granda,
capaz de
planos
belos e
malditos, fazendo a
suavidade da
noite, provocando
nossa
alegria e o
nosso
possível
engano
pela
magia de
seu
xadrez genuinamente
sul-americano.
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GM Julio Granda |
Em
pertinente
oportunidade, o
mestre Ronald
Câmara denominou-o
como “o
condor dos andes
peruanos”,
mercê de
sua consagradora
vitória no
Torneio
Memorial Capablanca de 1986,
em
Havana. Naquela
ocasião, Júlio Ernesto Granda
Zuñiga, ao 19
anos de
idade, obtinha
com
todos os
méritos o ambicionado
título de grande-mestre, sendo
assim, na
abalizada
opinião daquele
conceituado
colunista, “motivo
de
orgulho e
júbilo de
todo o
enxadrismo
sul-americano, ao
mesmo
tempo
que se constitui num
expressivo
exemplo de
força de
vontade,
determinação e
talento,
merecedor de
todos os
aplausos e
digno de
ser imitado
por
todos
aqueles
que aspiram
alcançar
semelhante
reconhecimento!”.
Ao completarmos
estas
notas, Granda
vinha cumprindo uma
destacada
atuação no
Torneio
Magistral Miguel Najdorf,
liderando essa
prova e produzindo
partidas de
notável
qualidade,
como a
que comentamos a
seguir. |
M. Adams x J. Granda (9ª
rod.
Magistral M. Najdorf, Buenos Aires,
13.04.1991 –
Siciliana, B 33).
1 e4 c5 2 Cf3 Cc6 3 d4 cxd4 4 Cxd4
Cf6 5 Cc3 e5!? (Ideiada
por Lasker, aperfeiçoada
por Pelikan e difundida
por Sveshnikov, esta
variante 5...e5 é uma das
que
mais alternam
bons e
maus
resultados,
com uma
cotação
oscilante na
bolsa de
valores da
teoria.
Estável,
mesmo,
só a
opinião de
que
para adotá-la, o
jogador das pretas deve
ter
um
estilo
bastante
empreendedor e sinta-se à
vontade
em
posições agudas e arriscadas.
Assim,
como
alguém
que pede
para
tomar
xarope
cinco
minutos
antes de
enfrentar o
pelotão de
fuzilamento...).
6 Cdb5 d6 7 Bg5 a6 8 Bxf6 gxf6 9
Ca3 b5 10 Cd5 f5 (Atualmente as
preferências têm-se voltado
para o
lance 10...Bg7.
Por
exemplo, 11 Dh5 Ce7 12 Ce3 d5!? N 13
Bd3 f5! 14 0-0-0 Dd6! 15 c4?! 0-0 16 Rb1 bxc4 17 Bxc4 Tb8 18 Bb3
Txb3! 19 axb3 fxe4 e as pretas,
embora
superiores, empataram
em 37
jogadas. Adams x Spasov,
Olimpíada de Novi Sad, 1990).
11 Bd3 Be6 12 c4 Da5+ 13 Rf1
(No
caso de 13 Dd2 Dxd2+ 14 Rxd2 Bh6+ 15
Rd1 bxc4 16 Cc7+ Rd7 17 Cxa8 cxd3 18 Cb6+ Rc7 19 exf5 Rxb6 20 fxe6
fxe6 e as pretas,
pela compacidade de
seu
centro, estariam
melhores).
13...Cb4!? (Aí
deve
estar a
preparação do GM Granda, praticando
um
lance
incomum e
promissor.
Agora,
por
exemplo, se 14 Dd2 Bxd5 15 cxd5 fxe4
16 Bxe4 Tc8, seguido de ...Da4
ou
mesmo ...Cc6,
com uma boa
partida. A
recomendação
até
então
era
para
seguir
com 13...fxe4
ou 13...Bxd5, sendo
que neste
último
caso,
depois de 14 cxd5, a
teoria indicava 14...Ce7 15 exf5 Bg7
16 Cc2 e4 17 Bxe4 Bxb2 18 Tb1 Dxa2 19 Ce3,
com
igualdade;
ou 16 Be4 Db4 17 De2 Tc8 18 g3 Cg8!,
com
igual
parecer).
14 exf5?! (Este
lance vai
conduzir a
partida
para
um
final
em
que as brancas ficarão
com
um
peão a
mais e uma
posição a
menos. Na
realidade,
porém, é
sempre
difícil
acertar
com o
melhor
caminho
ante uma
novidade
adrede
preparada).
14...Bxd5 15 cxd5 Cxd3 16 Dxd3 Tc8!
17 Cc2 Bh6! (Uma no
cravo,
outra na
ferradura! Granda,
com
precisão
eletrônica, dispõe
sua
peças da
melhor
maneira
possível).
18 Ce3 Db4! 19 Tb1 Bxe3! (Com
raro
senso posicional, o
condutor das pretas elimina a
única
peça
adversária
que
poderia
oferecer
algum
perigo de
ataque.
Após esta
troca, as brancas
vão
cair numa
nociva
passividade).
20 fxe3 (D’outro
modo, as pretas jogariam 20...Dc4+,
com funestas
conseqüências. Percebe-se
agora o
porquê do
intermediário 18...Db4!, deixando
ainda
mais manietado o
fleumático,
mas
apavorado representante de
Sua
Majestade).
20...Tg8 (“As
Veias
Abertas da Europa
Ladina”, taí
um
título
que
poderia
servir à
presente
partida. A
diferença ficaria
por
conta do
resultado:
este,
apenas subjetivo).
21 Rf2 Dg4! 22 g3 e4 23 De2 Dh3!!
(O
lance da
partida!
Um
sovina
qualquer cairia “de
pau” nesse
peão de f5,
com
xeque
ainda
por
cima, e
nunca
mais ganharia
este
jogo!).
24 Taf1 Tg5! 25 Re1 Txf5 (Aqui,
é
diferente;
aqui, esta
captura
não permite
nenhum
refúgio
para o
rei das brancas).
26 Dd2 Tf3! 27 Thg1 Tc5! (Antes,
o GM
peruano colocou a
torre na
segurança de f3, ao
mesmo
tempo
que,
com
isso, abriu uma
passagem
em
diagonal
para a
dama
preta
ir a c8
com
efeitos
devastadores).
28 Txf3
exf3 29 g4 Dh6! 30 Tg3 Dg6 (A
posição das pretas está
ganha,
mas é
preciso
ganhar!
Antes, o GM
inglês Michael Adams
não dispunha de 30 e4,
em
vista de 30...Tc1+, ganhando.
Agora,
tampouco...).
31 Dd1 De4 32 Txf3 (Se 32
Dxf3 Db1+! 33 Dd1 Tc1
ou 33 Re2 Tc2+ 34 Rd3 Tc1+! 35 Rd4
Tc4#).
32...Tc2! (Aí
está o “nó mexicano”,
aquele
cuja
corda
ata os
pés, as
mãos e
forma
um
laço
em
torno do
pescoço,
que se vai apertando à
proporção
em
que a amarrada
vítima
tenta se
libertar. O
mesmo
que o
vulgo
chama de “zugzwang”).
33 Tf2 Dh1+ 34
Tf1 Dxh2 35 Dd3 Tc1+, 0-1.
As brancas abandonaram. Uma
partida
que dignifica a
maestria do
melhor
enxadrista
latino-americano da
atualidade.
(Hélder
Câmara, in
Diário
Popular de 21.04.1991)

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