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A
Hidra
de Paderborn
Hélder
Câmara
A
espetacular
vitória da
desconhecida
Hidra no 13º International Computer
Chess Championship (IPCCCA), 2004, fev/11-15,
em Paderborn, na Alemanha, superando
consagrados ases e
campeões mundiais
como Fritz e Shredder, deixou
atônita a “comunidade
cibernética”
não
apenas
por
esse
resultado
em
si,
mas
também
pela
facilidade
com
que
ele foi obtido.
A
desconhecida
Hidra concedeu
um
único
empate (Shredder), perfazendo 6.5
pontos
em 7
possíveis, exibindo
um
estilo
que deixou confusos a
todos os
especialistas no
assunto,
relutantes
em
aceitar uma
explosão
assim –
fenômeno
tão
em
desacordo
com a
vagarosa e
gradativa
evolução desses softs.
Mas se examinarmos os
antecedentes de
seus
programadores,
logo entenderemos a
performance
magnífica dessa
terrível e
desconhecida
máquina.
Antes,
porém,
um
pouco de
história...
De
acordo
com a
Mitologia, o
segundo dos 12
trabalhos de
Hércules (Héracles) consistia
em
aniquilar uma monstruosidade
que aterrorizava a
região de Lerna, na Argólida.
Tratava-se da
Hidra, uma
serpente
gigantesca
com muitas
cabeças (sete,
nove,
cem
ou
dez
mil – dependendo da
imaginação do
povo de
cada
lugar),
extremamente
venenosa e
mortal,
posto
que
não havia
antídoto
para o
seu
veneno.
Suas
cabeças (entre
as
quais uma
era
imortal)
quando
cortadas, renasciam
em
dobro.
Por
isso,
Hércules teve de se
valer da
ajuda de
seu
sobrinho Iolau
que, à
proporção
que o
seu
tio decepava
cada
cabeça da
Hidra,
prontamente a cauterizava
com uma
tocha
ardente.
Quanto à
cabeça
imortal,
Hércules atirou-a num
buraco
profundo, tapando-o
em
seguida
com uma
enorme
pedra.
Durante a
luta
com a
Hidra, o
semideus
Hércules teve
ainda
que se
desvencilhar de
enorme e
incômodo
caranguejo,
enviado
por
sua
madrasta Juno (Hera)
para
lhe
atrapalhar.
Hércules esmagou-o
com os
pés e Juno, arrependida da
desgraça
que causara (ao
caranguejo...) recolheu o
que dele sobrou, transformando-o na
bela e reconhecível
constelação de
Câncer.
Hércules
tampouco se descuidou da
oportunidade de
embeber
suas
flechas no
sangue envenenado da
Hidra, tornando-as
assim terrivelmente mortais.
Entre
outros irmãozinhos da
Hidra, anotavam-se Ostro,
Quimera e Scylla. O
primeiro, Ostro,
era
um
cão
com várias
cabeças e o
corpo de
serpente,
muito parecido
com
seu
outro
irmão, Cérbero,
que
por
seu
turno vigiava as
portas do
Inferno (Hades). Ostro teve a
infelicidade de
ter
como
função a
vigia do
gado de Gérion e tentou
impedir o
décimo
trabalho de
Hércules,
que
era “roubar os
bois
vermelhos dos
enormes
rebanhos de Gérion”.
Morreu de
porrada..
A
Quimera
tinha a
cabeça de
bode,
cauda de
dragão e vomitava
fogo.
Era o
terror da Lícia,
região da Ásia
Menor, e foi
morta
pelo
herói
grego Belerofonte.
Scylla
era uma
criatura
horrível,
com 12
pés e 6
longos
pescoços a
sustentar
em
cada
um deles uma
cabeça
com
filas de
dentes
mortais
com os
quais devorava
qualquer
vítima
que pudesse
alcançar.
À
luz da
psicanálise,
Hércules e a
Hidra representam a
mesma simbologia da
eterna
luta do
Bem
contra o
Mal. É o
perene
duelo de
Luz e
Sombra
que encontramos
nos
combates
entre Perseu e a
Medusa, Teseu e o Minotauro,
culminando
em
época
mais
recente
com a
obra-prima “O
Médico e o
Monstro”, de Robert Louis Stevenson –
conflito
em
que se expõe a
fragilidade da
natureza
humana e a desesperada
luta
que travamos
conosco
mesmos
para
manter
sob
controle o
perigoso e
incognoscível
lado
obscuro de
nossa
alma.
Segundo Efraim Boccalandro, “a
Hidra (de Lerna) revela-nos a
vaidade, os
vícios
que renascem
em
dose
dupla,
assim
como
suas
cabeças. O
pântano
onde
ela vivia representa as
águas estagnadas –
imagem de
um
inconsciente
não
criativo, parado. O
sangue da
Hidra,
que
era
venenoso, podia
contaminar as
águas do
pântano,
assim
como os
vícios corrompem
aqueles
que
com
ele têm
contato...”.
Há
quem veja na
Hidra a verdadeira
natureza
humana,
ou seja,
nossos
estados
interiores degradados, nossas
paixões e
defeitos,
enfim –
tudo o
que há de
ruim
em
nossos
mundos
internos, daí
nosso
constante e
hercúleo
esforço
em
pelo
menos dominá-la,
quando
já
não for
possível destruí-la.
E
não é
demais
lembrar de
que aquela
cabeça
imortal enterrada
por
Hércules representa a
constante
ameaça de
volta aos
vícios, bastando
para
isso libertá-la de
sua
prisão
apenas
supostamente
inexpugnável...
A
idéia dos
programadores austríacos Chrilly
Donninger, Ulf Lorenz, Alex Kure e Erdogan Gunes (book)
era
transformar o
tronco
básico de
seu
programa (Hidra)
em variadas
versões (Ostro,
Quimera e Scylla).
Não podemos
deixar de
registrar
que essa
mesma
quadra de ases
em
programação lançaram no
ano
passado a
mais
espetacular
novidade
em
matéria de soft enxadrístico – o
extraordinário Brutus, defendendo as
cores da Alemanha. Nesse
último
torneio disputado
pelo Brutus,
ele
fora superado
apenas
pelo Fritz, Shredder e Deep Fritz,
ocasião
em
que totalizou 8.5
pontos
em 11
possíveis,
mas
com 2
pontos (!) de
diferença
sobre o
quinto colocado.
Depois disso, Brutus retirou-se de
cena.
Este
ano,
eis
que aparece
um
programa
tão
revolucionário
quanto o Brutus, dos
mesmos
autores,
mas... representando a UAE (United
Arabian Emirates).
Isso
nos
força a
concluir
que
Hidra e Brutus
são o
mesmo (e
ótimo)
programa.
Hydra 1.02 x Fritz Paderborn
(4ª rod. 13º IPCC, Paderborn, Ale, 13.02.2004 –
Irregular, A 00) 1 Cc3 d5 2 e4 d4 3
Cce2 e5 4 d3 Cc6 5 f4 Bb4+ 6 c3 dxc3 7 bxc3 Ba5 8 Dc2 exf4 9 Cf3
g5 10 d4 g4 11 Cd2 Df6 12 d5 Ce5 13 Cb3 Bb6 14 Cxf4 Dh4+ 15 g3 De7
16 c4 Cf3+ 17 Rd1 c5 18 Bb2 Ce5 19 Cd3 f6 20 Bxe5 fxe5 21 Bg2 Cf6
22 Tf1 0-0 23 Dd2 Bc7 24 Cbxc5 b6 25 Cb3 Ba6 26 Tc1 Bd6 27 Tf5 Rh8
28 c5 bxc5 29 Cbxc5 Bb5 30 Ce6 Ba4+ 31 Re2 Bd7 32 Cxe5 Bxe6 33 Cc6
De8 34 dxe6 Dxe6 35 Cd4 De8 36 e5 Tae8 37 e6 Bc7 38 Tc6 Td8 39 De3
Bb6 40 Txb6 axb6 41 Cc6 Dd6 42 Cxd8 Txd8 43 Bd5 De7 44 Bb3 Tb8 45
Bc4
Te8 46 Dxb6 Rg7 47 Tg5+ Rg8, 1-0.
(HC)
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