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A Hidra de Lerna

Ronald Câmara

       Em  recente programa de televisão, o vivaz gordo e versátil “showman” Jô Soares satirizou o trabalho de variadas maneiras, culminando com a caricatura de Hércules e suas façanhas.

       Célebre herói da mitologia greco-romana, essa figura lendária tem a seu crédito trabalhos extraordinários, chegando mesmo a ajudar Atlas na tarefa ingrata de sustentar o mundofeito por si mais do que suficiente para atestar a sua grandeza e capacidade.

       Houve, porém, uma proeza que não pode efetuar sozinho: com toda a sua força descomunal não conseguiu aniquilar a Hidra de Lerna – serpente fabulosa que possuía diversas cabeças, cada uma das quais, quando era cortada, renascia com mais ímpeto e vigor. Com todo o seu poderio, Hércules mostrou-se incapaz de exterminá-la e lhe foi possível concluir esse trabalho quando o seu sobrinho Iolaos, de forma astuciosa, começou a queimar as cabeças à medida em que iam sendo eliminadas.

       Considerado o mais difícil e glorioso trabalho de Hércules, esse episódio passou à literatura universal como símbolo de pessoa ou coisa que se renova constantemente, resistindo assim a todos os esforços que se façam para a destruir ou afastar.

       Na arte enxadrística, existe também umdragãoque teima em sobreviver às sucessivas tentativas de esmagá-lo. De constituição aparentemente vulnerável, é no entanto um monstro de muitas cabeças, sempre substituindo por outra cada cabeça que perde.

       No último Torneio Internacional de Lone Pine, o ex-mestre soviético Igor Ivanov (atualmente residindo no Canadá) demonstrou toda a vitalidade dessa intrincada linha de jogo, produzindo uma das mais interessantes partidas desse certame, tendo comovítima do Dragão” o mestre norte-americano Jack Peters.

       J. Peters x I. Ivanov (11º Torneio Louis Statham, Lone Pine, abril/1981 – Siciliana, B 71) 1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 f4 (Para dizimar o “Dragão”, o mestre norte-americano recorre à uma continuação ardilosa, de autoria do didata soviético Grigory Levenfish, que encerra algumas sutilezas táticas).

       6...Cc6 (As preferências se dividem entre o lance do texto e 6...Cbd7. É oportuno lembrar que, neste momento, 6...Bg7? é considerado um erro, citando-se a seguinteterrível cilada”: 7 e5! – este avanço é o “quid” de toda essa linha de jogo – 7...dxe5 8 dxe5 Cd5 9 Bb5+! Rf8 10 0-0 Bxe5 11 Cxd5 Dxd5 12 Bh6+ Rg8 13 Cf5! Dc5+ 14 Be3! Dc7 15 Ch6+ Rg7 16 Txf7#. Toda essa sequência é atribuída ao mestre israelita Miguel Czerniak e aparece no livro de Irving Chernev, “Winning Chess Traps”, maio de 1946, tendo ocorrido em diversas partidas da prática magistral).

       7 Cxc6 bxc6 8 e5 Cg8!?! (Equívoco ou novidade teórica? Nenhum especialista da “variante do Dragão” menciona este retorno do cavalo à baia, registrando apenas 8...Cg4 e 8...Cd7. Muito embora o curso desta partida seja favorável às pretas, isto não implica, contudo, na aprovação dessa estranha retirada).

       9 Be3 (Esta é a continuação comumente adotada contra 8...Cd7. Com a mudança havida, merecia consideração 9 Df3, uma vez que não era aconselhável 9...Bg7 por causa de 10 Dxc6+ Bd7 11 Dd5, com vantagem das brancas).

       9...Bg7 10 exd6 exd6 11 Dd2 Ce7 12 0-0-0 0-0 13 h3 (A captura 13 Dxd6 ensejaria 13... Dxd6 14 Txd6 Bxc3! 15 bxc3 Cf5! 16 Td3 Ba6 17 c4 Bxc4 18 Tc3 Bxa2, com final superior para as pretas).

       13...Cf5! 14 Bf2 Tb8! 15 g4 (Uma tentativa de aliviar a crescente pressão das peças pretas. Note-se que 15 Bxa7 seria contestado com 15...Txb2!! 16 Rxb2 Da5!, com ataque decisivo das pretas).

       15...Da5! 16 Bc4 (Que aconteceria após 16 gxf5? A resposta é encontrada na seguinte alternativa: 16...Txb2! 17 Bd4 – se 17 Rxb2? Db4+ era conclusivo – 17...Da3! 18 Cb1 Dxa2 19 Dc3 Dxb1+ 20 Rd2 Bxd4!, com fácil triunfo).

       16...Tb4 17 Bb3 Cd4! (Quem podia supor que, após a sua melancólica retirada no 8º lance, este corcel ocuparia tão destacada posição!).

       18 The1 c5! (O ganho de material com 18...Cf3 permitia que as brancas respirassem aliviadas mediante 19 Dxd6 Cxe1 20 Bxe1!, ameaçando 21 Cd5! Com excelente contrajogo).

       19 Te7 Be3 20 Bxe6 Cxe6 21 Be1 Txb2! (Mesmo tendo sido reforçada a defesa da casa c3 – ponto nevrálgico das brancas nesse tipo de posição – é possível este sacrifício demolidor).

       22 Rxb2 Db4+ 23 Ra1 Tb8! (Somente de modo indireto o mate pode ser evitado, pois se 24 Tb1? Dxb1#, enquanto 24 Dc1? Bxc3+ conduziria a idêntico desenlace).

       24 Te8+! Txe8 25 Tb1 Dxf4 26 Tb7 (Com a desvantagem de dois peões e a situação comprometida de seu rei, as brancas não têm nenhuma chance de salvação. Somente a premência de tempo do condutor das pretas explicaria a obstinação do mestre norte-americano em não hastear a bandeira branca. É oportuno assinalar que 26 Dxf4 Cxf4 27 Bd2 Ce2! 28 Tb3 – se 28 Te1 Te4! definiria – 28...Cd4 29 Tb2 Cf3, ganhando).

       26...Df3! 27 Txa7 Cd4! 28 Rb1 Df1 (Um outro caminho para o triunfo era 28...Tb8+ 29 Rc1 – se 29  Ra1 Dxc3+! 30 Dxc3 Cxc2#! – 29...Dxc3! 30 Dxc3 Ce2+ com vantagem decisiva).

       29 Ce4 Txe4 30 Ta8+ Bf8 31 Dh6 Dxe1+, 0-1. As brancas finalmente abandonaram. Após 32 Rb2 Db4+, seguido de mate. Uma vigorosa partida de ataque, de grande interesse teórico.

       Ronald Câmara, in O POVO de 26.07.1981.

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