Do eminente
Professor (e Técnico de Xadrez) Alfredo Pereira dos Santos,
recebemos este interessante artigo que deixa a descoberto
algumas falhas do nosso ensino básico (HC)
Há um psiquiatra na casa?
O MI Hélder Câmara escreveu em
1999, na sua coluna do Diário Popular, sobre um menino inglês
de 8 anos, David Howell, que, tendo aprendido a jogar xadrez
aos 5 anos, com o pai, três anos depois enfrentou o GM Nunn,
tendo-o derrotado. Era então o campeão inglês na categoria
sub-9/10.
Eu nunca tinha ouvido falar nele e
de 1999 para cá muita água haveria de ter rolado sob a ponte.
Onde andaria hoje o menino? O que estaria fazendo.
Fiquei então sabendo que aos três
anos os pais (um médico e uma professora) o colocaram na
escola cuja foto está abaixo.
St. Andrews Preparatory
School
Abaixo estão descritas
algumas atividades à disposição dos alunos, entre elas o
xadrez.
A feature of
St Andrew's is the wide range of after-school activities
offered to the children. During the two winter terms every
evening is full of activity. In the Summer, when longer
evenings allow for greater participation in outside pastimes,
the activity programme changes to allow for these, alongside
the most popular indoor activities. Hobbies include amateur
radio, art, canoeing, chess, climbing, computers, cookery,
craft, drama, gymnastics, indoor hockey, juggling, model
making, stamp collecting, table tennis, textiles and many
more.
Participation in hobbies is entirely voluntary but most
children choose to take part two or three evenings a week.
Many stay for the night afterwards and enjoy the company of
their friends in the boarding houses. Constructive use of
leisure time is encouraged and hobbies bring girls and boys
together in recreational activities. One of the favourite
hobbies is climbing where children learn the basic techniques
of climbing and abseiling. Skiing trips and adventure holidays
organised by staff in the holidays are also very popular.
Hoje ele está com 16 anos e é o
mais jovem Grande Mestre inglês de xadrez. Agora ele está em
outra escola, a que vocês podem ver na foto abaixo.
Eastbourne School
Olhando a aparência dessas
escolas, onde muitos alunos tremem ao entrar, me veio à mente
que a Inglaterra já foi a maior potência mundial, sendo
chamada de "O Império onde o sol nunca se punha",
e fiquei imaginando a enorme quantidade de disciplina, estudo,
dedicação e trabalho que eles tiveram que ter para atingir
essa posição e manté-la por mais de um século, depois que se
livraram de Napoleão, mandando-o para Elba e depois para Santa
Helena, onde morreu.
Veio-me a mente a Era Vitoriana,
com o seu puritanismo, juizes que condenavam à forca meninos
de 12 anos pelo crime de roubar talheres, dizendo "That´s
the law" e a sensação de que tamanhos feitos devem
ter sido as custas de enormes doses de repressão sexual e com
a criação de legiões de neuróticos obsessivos e sofredores.
Não é de se estranhar que tenha
sido justamente na Inglaterra que surgiu uma escola como
Summerhill, cujo fundador, Alexander Neil dizia que "mais
vale o carteiro feliz do que o erudito neurótico".
Esses ingleses já foram donos do
mundo e construíram estradas de ferro em muitos lugares,
inclusive no Brasil. Até as balanças que o Banco do Brasil
usava para pesar ouro, eram feitas por eles. Eles nos
trouxeram muitas coisas mas nos deixaram muitos problemas,
inclusive mentais. Vocês sabiam que o Jânio Quadros "A
UDN de porre", adorava a Inglaterra e a cultura
inglesa?
Acho que somos mais saudáveis do
que eles, mas não sei por quanto tempo mais o seremos. Já
temos os nossos Holligans e Jack, o Estripador, deve haver
muitos em potencial por ai. Fomos expulsos do Paraíso e não
podemos mais voltar. A esperança no "Direito à
Preguiça" que o Paul Lafargue nos inspirou está
debaixo de cerrado ataque.
Elisa Dolittle também saiu do
paraíso e não pode mais voltar. Depois que o professor Higgins
disse que o seu inglês vulgar "ofende a nobre
arquitetura dessas colunas", referindo-se ao prédio
onde se encontravam, e que poderia, em seis meses, ensiná-la a
falar tão bem que ela poderia se passar por uma dama em baile
da corte, ela caiu em tentação, mordeu a maçã e o resto foi o
que se viu. A peça, "My Fair Lady", de
Bernard Shaw, foi levada às telas e pode ser encontrada em DVD.
A versão é a de 1965, que eu acho muito melhor do que a 1937.
É uma aula de Império Britânico.
Iremos nós pelo mesmo caminho ou
teremos salvação?